Sério colóquio futriqueiro no Bar São Jorge
Brasil
23 de junho de 2013 - 16h36
Fernando Soares:
Os
pauteiros da PressAA, saíram ontem do Bar São Jorge, um tanto borrachos, e
voltaram para a redação. Minutos depois, o proprietário do bar ligou para o
editor-assaz-atroz-chefe, e contou que, logo que os gazeteiros saíram, dois
jornalistas sérios entraram no boteco e desenrolaram um colóquio futriqueiro.
Aí, bateu pra nós, pra nós poder bater pra nossa a patota.
Por
Fernando Soares Campos*, no Agência Assaz Atroz
Ainda
ontem, telefonaram para nossa redação, dando uma dica perspicaz:
“Tinha
manifestante usando a máscara do V, Guy Fawkes, e gritava "Não à
Violência!". Acho que uma coisa não bate com a outra. Não é bem assim que
o personagem acha que as coisas seriam mudadas...”
(Não
entendemos bem o que o rapaz quis dizer, mas vale o registro)
Outro
ligou e disse:
“Escuta:
vocês perceberam que, nos primeiros momentos das manifestações, os telejornais
chamavam os vândalos de vândalos mesmo. Logo passaram a chamá-los de minorias
radicas. E assim ficaram falando durante muitos dias. Agora passaram a
chamá-los pelo verdadeiro nome: bandidos! Alternando com baderneiros. Acho que,
se o movimento se reverter em favor do governo, eles vão chamar os caras de
incompetentes! O que vocês acham...?”
(A
linha caiu)
Nós
não achamos nada. Pelo contrário, perdemos celulares, uma mini câmera, e até a
Brasília amarela da nossa equipe de reportagem foi esculachada.
Mas
vamos ao bate-papo que rolou no Bar São Jorge depois
de nossa saída:
Escrevinhador:
― A marcha em São Paulo, nesta quinta-feira, foi convocada pelo MPL, Movimento
Passe Livre, para comemorar a vitória obtida com a redução nas tarifas de ônibus e
metrô. Era pra ser uma festa. Virou mais um sintoma preocupante do avanço da
extrema-direita nas ruas. Um manifestante mordeu a bandeira do PT. Outras
bandeiras foram queimadas. Nenhuma era de partidos de direita, como PSDB ou
DEM. Não. O ódio “anti-partido” tem um sen- tido muito claro.
Náufrago:
― "A revolução não é o convite para um jantar, a composição de uma obra
literária, a pintura de um quadro ou a confecção de um bordado, ela não pode
ser assim tão refinada, calma e delicada, tão branda, tão afável e cortês,
comedida e generosa. A revolução é uma insurreição, é um ato de violência pelo
qual uma classe derruba a outra."
Não sou fã incondicional do velho Mao Tsé--Tung, mas ele
tinha lá seus momentos. Esta frase é uma pérola.
Escrevinhador:
― Eu estava lá. Vi de perto. Como já acontecera em outras manifestações nas
últimas duas semanas, grupos organizados e que se dizem “apartidários”, o que,
aliás, é um direito de qualquer cidadão, tentaram impedir que os partidos
políticos e as organizações sociais erguessem suas bandeiras na avenida
Paulista. Agrediram militantes do PSTU, xingaram a turma do PSOL e ameaçaram a
militância do PT. Na minha frente, um homem com capacete de motoqueiro e jaqueta de couro
tentou bater numa senhora com mais de 60 anos, que carregava uma bandeira
vermelha. “O PT não vai sair desse quarteirão, não vamos deixar o PT pisar
aqui, é a nossa avenida”, o homem gritava descontrolado.
Náufrago:
― Muitos companheiros estão assustados com o rumo que os protestos de rua
tomaram em Sampa. Como a participação da direita fardada foi catastrófica,
agora é a direita de jeans que reage ao movimento, com mais argúcia.
Escrevinhador:
― Acho que há bons motivos, sempre, para criticar os partidos. Faz parte da
Democracia. O PT, especialmente, pode ser criticado por ter cedido demais aos
“acertos de gabinete”. Mas querer impedir, na marra, que partidos e organizações
sociais participem de um ato público não tem outro nome: fascismo.
Náufrago:
― E, também, com uma aparente forcinha do PT. Não dá para acreditarmos que o
Rui Falcão mandasse militantes emban- deirados para o olho do furacão sem
prever que seriam hostilizados. Meu palpite é bem outro: ele queria que
acontecesse exatamente o que aconteceu.
Escrevinhador:
― Não é nenhum exagero. Quem estava lá na Paulista sentiu de perto. O clima de
ódio era tão grande que a mani- festação adotou um formato curioso: em uma faixa
da avenida, mar- charam o MPL, seguido por UJS, UNE, MST e por militantes de
par- tidos como PT, PSOL, PSTU e PCO, estes três bastante críticos em re- lação
a Dilma e ao PT.
Bate-papo editado pelos pauteiros da
PressAA.
Bar
São Jorge: “Salta um coquetel molotov estupidamente...”
Os periodistas
da PressAA, de saco cheio, cansados de bater cartão de ponto e receber vale em
vez de pagamento integral, e não aceitando as desculpas do barão proprietário
desta desorganização pasquineira, o qual se prepara para deflagrar um
passaralho na redação, alegando que uma crise financeira e econômica assola o
Planeta... assim, aderiram aos protestos das multidões e passaram a trabalhar
sob regime de greve.
Na
hora do almoço, em vez de marmita, os atrozes jornalistas decidiram tentar mais
um pendura no Bar São Jorge, onde costumam jogar conversa fora nos happy hour das sextas-feiras.
O
proprietário do botequim recebeu os gazetistas escabreado...
...mas acabou
cedendo às súplicas dos choramingas.
Sentados
e degustando o couvert composto de pão com
mantei- ga e sanduíche de mortadela, rolou um pressuroso papiar dos periodistas
pauteiros da PressAA.
..........................................................................................
―
Então, já chegaram à conclusão sobre a verdadeira origem e o destino dos
protestos que abundam e medram... e bota abunda e medra nisso... pelas ruas das
principais cidades do Brasil?
― Nós
sabemos que essa coisa começou mesmo por causa das elevadas tarifas dos
transportes coletivos. Mas agora perderam o controle devido à imensa retirada
dos direitos sociais da população nos últimos anos.
―
Retirada de direitos sociais?! E desde quando a população desfrutou de plenos
direitos sociais?
―
Ora, com a transferência da corte portuguesa pra cá, D. João VI abriu os portos
às nações amigas, criou o Banco do Brasil pra inglês sacar, mandou construir
uma fábrica de pólvora, fundou a Bi- blioteca Nacional...
― É
verdade! E, poucas décadas depois, depois de poucos séculos de chi- bata, a
princesa angelical aboliu a escravidão.
― Mas
não fez reforma agrária.
―
Claro que não! Muitos jovens abolicionistas eram filhos dos barões
escravagistas, eram herdeiros de latifúndios. Uma coisa é expressar gestos
fra -ternais e tentar se redimir dos pecados originais. Outra é abrir mão do
suado patrimônio da família, renunciar a heranças...
―
Corta essa fita, salta pros dias de hoje. Vocês acham mesmo que o governo atual
retirou os direitos sociais da população, como tem esquerdista quiliasta
dizendo?
― É
como o chapa aí falou: desde quando tivemos plenos direi- tos sociais?
― Bem
ou mal, a segurança pública melhorou.
― Como
assim? Não exagera, cara!
― Eu
provo. Não faz muito tempo, os protestos de rua eram enfrentados pela polícia
com chumbo de verdade. Agora, nas manifestações da classe média, usam balas
de borracha. As armas de grosso calibre só podem ser utilizadas nas periferias,
em ações de reintegração de posse de lotes favelados, ou no campo, contra
índios e invasores de terra.
―
Fala sério! Pára com essas gozações.
―
Isso mesmo, vamos falar sério. Já que lembramos de D. João VI, lembrem-se
também de que foi ele quem permitiu atividades de imprensa aqui em Pindorama.
―
Pois é! Mas havia censura. Só se podia publicar a favor da realeza. O Correio
Braziliense, que era rodado em Londres e enviado pra cá, recebia jabaculê para
apoiar a monarquia.
― E
nos últimos tempos não houve avanço no setor das comunicações? Não?! Não
houve?!
―
Houve sim. Agora, o governo tenta cooptar a imprensa destinando as verbas
publicitárias para os barões do café-soçaite midiático-nativo, sediado em
solo pátrio! Assim, estancou a sangria de divisas. O dinheiro fica aqui mesmo,
enterra Brasilis.
― Só
vai para os paraísos fiscais o caixa-dois, o por-fora, apesar de ser bufunfa
afanada legalmente, através das brechas na legislação.
―
Legal, cara! Legal, m’ermão, legal!
― É
dessa forma que corporações detentoras de suportes midiáticos arranjam
parceiros além-mar.
―
Vamos dar um tempo nessas lorotas, vamos falar seriamente mesmo.
―
Tudo bem. Então, alguém responda se for capaz: qual a principal reivindicação
dos manifestantes, hoje, nas ruas de todo o Brasil?
― Essa
é fácil: passe livre, sem precisar escalar a catraca.
― Tá
frio...
―
Saúde!
― Ué!
Quem espirrou aqui?!
―Tou falando de melhor atendimento nos
hospitais e manicômios.
―
Acho que é o engavetamento e sepultamento da peque trinta e sete...
―
Despoluição do Tietê!
―
Higienização dos aeroportos. Aumento das tarifas aéreas, a fim de que a ralé
pare de viajar de avião.
―
Vocês tão por fora... A principal reivindicação dos revoltosos é o barateamento
da gasolina feita com o petróleo do pré-sal.
― Tão é delirando. O que a turba
enfurecida quer mesmo é a demonização das comunicações.
―
Você quer dizer “democratização”, né?
―
Não! É demonização mesmo. Não é demonizá-la amaldiçoando seus efeitos malignos,
mas sim torná-la ainda mais demoníaca.
― Num
tou te entendo.
―
Vamos lá. Perdido no meio do turbilhão, havia um único cartaz com a inscrição:
“Queremos a democratização dos meios de comunicação”. Assim mesmo, rimando.
― E
então?!
― E
então? E então que os vândalos partiram pra cima do coitado que portava o
cartaz, tomaram e tascaram fogo no pasquim. Foi aí que o âncora do telejornal
deixou de lado a ridícula pieguice de dizer que a maioria é cândida, bonachona,
e que os terroristas são minorias radicais... O cara perdeu as estribeiras e
gritou furibundo:
“Era
um terrorista com uma mochila preta nas costas! Mas os pacíficos manifestantes perderam
a paciência com ele”.
O ar
condicionado do Bar São Jorge está pifado há anos. O calor das fogueiras nas
ruas irradiou-se até o interior do boteco, aumentando a temperatura a um
nível insuportável. Um periodista já um tanto borracho gritou para o dono do
boteco:
―
Salta uma cerveja estupidamente...
Raimundo,
o garçom rápido no gatilho, arremessou uma garrafa, que colidiu violentamente
com a testa do freguês. Este se esborrachou no chão: Pluft! Estendido no meio
do salão, o gazetista da PressAA completou:
―
...gelada, cara! Gelada!
Fernando Soares
Campos é jornalista e editor chefe do blog AAA - Agência Assaz Atroz