O TELEFONE
RUBEM ALVES

O telefone São duas e meia da madrugada. Já
faz três horas que estou travando uma batalha de seis contra a insônia: durante
a insônia o tempo é contado em dobro. Tento, em vão, pôr um fim à baderna que
as idéias resolveram fazer na minha cabeça. Mentalizo uma escuridão total, na
esperança de que as idéias pensem que a festa acabou. Inutilmente. O baile
continua. Pensamento pode ser coisa infernal, moto-contínuo, máquina que não
pára. Por mais que supliquemos. Bastaria que ela parasse por um segundo apenas:
seria o suficiente para que o sono viesse, com o seu abençoado esquecimento.
Mas a máquina de pensar não tem misericórdia.
Desisto da luta. Diz o ditado inglês: If you cannot
beat them, join them. Resolvo entrar no baile. Ponho-me a dançar com um
telefone, pois foi com ele que tudo começou.
O dia tinha sido muito cansativo.
Arrastei-me de volta para a casa, o corpo pedindo um banho, a boca pedindo
sopa, pão com alho e tomate, os olhos pedindo momentos de doce torpor hipnótico
diante da televisão. Depois, o sono. Às dez e meia eu já estava dormindo.
Mas meu nirvana durou pouco. Logo soou a
campainha do inferno, acordei assustado sem saber que horas eram, telefonema no
meio da noite só pode ser coisa ruim, que teria acontecido? O coração acelerado,
tirei o fone do gancho:

–
Alô!
– É o Rubem?
A voz, do outro lado, era leve e tranqüila.
Vi logo que coisa grave não seria.
– Sim, é o Rubem... – Que alegria!
A pessoa se identificou. Era gente querida,
que chamava de muito longe.
– Eu estava lendo um livro seu, senti
saudades, resolvi telefonar. Não tenho nada de especial para dizer. Só queria
ouvir a sua voz.
Conversamos um pouquinho, meu coração
comovido com aquela prova de amor. Mas o meu corpo estava bravo. Por mais que
eu argumentasse, ele não se conformava de ter sido arrancado do sono.
Tentei acalmá-lo, mostrando que não havia
razão para tanta braveza. O melhor seria voltar para a cama e dormir. Afinal de
contas, não era tão tarde assim, apenas onze e meia. Ele me disse que não
aceitava explicações. E, como prova de sua raiva, jogou areia e pimenta nos
olhos. Tentei argumentar de novo. Citei Santo Agostinho: Ama e faze o que quiseres. Até aquele momento esta fórmula ética tinha
sido, para mim, absoluta. O argumento se desenrolava como um silogismo. Aquele
telefonema fora fruto do amor. Conclusão: estava, portanto, moralmente
justificado. Mas meus olhos cheios de
areia e pimenta retrucaram: Agostinho só disse isso porque na casa dele não
havia telefone. Se houvesse a sua máxima teria sido um pouquinho diferente: Ama
e faze o que quiseres. Mas, no caso do ato de amor ser um telefonema, por
favor, veja antes que horas são!
Entreguei os pontos, convencido. Abandonei--me
à raiva daquela insônia. Atos de amor por vezes são terríveis. E me pus a
pensar sobre esse tirano, o telefone.
Alguns cientistas têm estado a debater se
telefone celular causa ou não câncer. Como estão equivocados! A verdade é o
oposto. É o câncer que produz o telefone celular. Telefone celular é uma
doença, evidência de perturbação mental. Pois só pode ser louco quem quer
carregar um chato a tiracolo.
Para início de conversa, é o tipo mais mal educado
que conheço. A gente ensina aos filhos boas maneiras, pedir licença, não
interromper a conversa. Para o telefone isso não vale. Invade casa e quarto a
qualquer hora, aos gritos, sem pedir licença, em completa desconsideração por
aquilo que se está fazendo, pouco lhe importando que a pessoa esteja dormindo,
no banheiro, trabalhando, rezando ou fazendo amor, e só pára de gritar quando
seu desejo é atendido. O ato de atender ao telefone, parece-me, dá ao outro a
impressão de que estávamos ali, à espera, com todo o tempo do mundo disponível.
E o pior é que todo mundo obedece. Já
reparam o pandemônio que ele cria numa casa com seus gritos histéricos? E como
se fosse um rei, cujas ordens têm de ser obedecidas imediatamente.

E, depois, vêm os insultos. Para mim, o
mais detestável é quando a telefonista atende e diz: Um momentinho só! E, sem nos consultar, põe o telefone sobre um
rádio. E ali fico eu, sem alternativas, obrigado a ouvir anúncios, música
caipira ou rock pois, se não o fizer, não saberei quando a pessoa atende. Há
também a situação inversa, quando o outro nos chama e a telefonista diz: Um momento, por favor! Aí, toca a
procurar a pessoa que fez a chamada que, naquele momento, deve estar num outro
lugar e que imagina que o seu tempo é precioso demais para esperar, somos nós,
desocupados, os que temos de ficar esperando. Mas isso eu resolvo fácil. Conto
até dez e desligo. Se chamar de novo, digo que a linha caiu.
Depois dos insultos, as humilhações. A
telefonista atende, digo com quem desejo falar e ela pergunta: De onde? Fico perplexo. Desde quando deixei
de ser uma pessoa para transformar-me num lugar? Pois a pergunta de onde? pressupõe que o que importa, o
que me define, é o lugar onde estou. Sou onde estou! Que filosofia besta!
Resolvo brincar. A sua pergunta sobre o onde
respondo com o meu endereço. Não, não,
ela me interrompe, espantada com a minha burrice. O nome da sua firma... Pergunto de volta: E se eu não tiver firma?
E ela se cala. Não lhe ensinaram como proceder em tal situação. Ela não sabe o
que fazer quando, do outro lado da linha, quem fala é uma pessoa e não um
lugar.

Estou com raiva do telefone. A pimenta e a
areia transbordaram dos olhos. Entraram nos pensamentos. Vou voltar para a
cama, na esperança de poder dormir e desejoso de que não haja outro telefonema
de amor que me acorde.
12/12/93
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