segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

ALVES, RUBEM - O TELEFONE


O TELEFONE
RUBEM ALVES
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O telefone São duas e meia da madrugada. Já faz três horas que estou travando uma batalha de seis contra a insônia: durante a insônia o tempo é contado em dobro. Tento, em vão, pôr um fim à baderna que as idéias resolveram fazer na minha cabeça. Mentalizo uma escuridão total, na esperança de que as idéias pensem que a festa acabou. Inutilmente. O baile continua. Pensamento pode ser coisa infernal, moto-contínuo, máquina que não pára. Por mais que supliquemos. Bastaria que ela parasse por um segundo apenas: seria o suficiente para que o sono viesse, com o seu abençoado esquecimento. Mas a máquina de pensar não tem misericórdia.
Desisto da luta. Diz o ditado inglês: If you cannot beat them, join them. Resolvo entrar no baile. Ponho-me a dançar com um telefone, pois foi com ele que tudo começou.
O dia tinha sido muito cansativo. Arrastei-me de volta para a casa, o corpo pedindo um banho, a boca pedindo sopa, pão com alho e tomate, os olhos pedindo momentos de doce torpor hipnótico diante da televisão. Depois, o sono. Às dez e meia eu já estava dormindo.
Mas meu nirvana durou pouco. Logo soou a campainha do inferno, acordei assustado sem saber que horas eram, telefonema no meio da noite só pode ser coisa ruim, que teria acontecido? O coração acelerado, tirei o fone do gancho:
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 – Alô!
– É o Rubem?
A voz, do outro lado, era leve e tranqüila. Vi logo que coisa grave não seria.
– Sim, é o Rubem... – Que alegria!
A pessoa se identificou. Era gente querida, que chamava de muito longe.
– Eu estava lendo um livro seu, senti saudades, resolvi telefonar. Não tenho nada de especial para dizer. Só queria ouvir a sua voz.
Conversamos um pouquinho, meu coração comovido com aquela prova de amor. Mas o meu corpo estava bravo. Por mais que eu argumentasse, ele não se conformava de ter sido arrancado do sono.
Tentei acalmá-lo, mostrando que não havia razão para tanta braveza. O melhor seria voltar para a cama e dormir. Afinal de contas, não era tão tarde assim, apenas onze e meia. Ele me disse que não aceitava explicações. E, como prova de sua raiva, jogou areia e pimenta nos olhos. Tentei argumentar de novo. Citei Santo Agostinho: Ama e faze o que quiseres. Até aquele momento esta fórmula ética tinha sido, para mim, absoluta. O argumento se desenrolava como um silogismo. Aquele telefonema fora fruto do amor. Conclusão: estava, portanto, moralmente justificado. Mas meus olhos cheios de areia e pimenta retrucaram: Agostinho só disse isso porque na casa dele não havia telefone. Se houvesse a sua máxima teria sido um pouquinho diferente: Ama e faze o que quiseres. Mas, no caso do ato de amor ser um telefonema, por favor, veja antes que horas são!
Entreguei os pontos, convencido. Abandonei--me à raiva daquela insônia. Atos de amor por vezes são terríveis. E me pus a pensar sobre esse tirano, o telefone.
Alguns cientistas têm estado a debater se telefone celular causa ou não câncer. Como estão equivocados! A verdade é o oposto. É o câncer que produz o telefone celular. Telefone celular é uma doença, evidência de perturbação mental. Pois só pode ser louco quem quer carregar um chato a tiracolo.
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Para início de conversa, é o tipo mais mal educado que conheço. A gente ensina aos filhos boas maneiras, pedir licença, não interromper a conversa. Para o telefone isso não vale. Invade casa e quarto a qualquer hora, aos gritos, sem pedir licença, em completa desconsideração por aquilo que se está fazendo, pouco lhe importando que a pessoa esteja dormindo, no banheiro, trabalhando, rezando ou fazendo amor, e só pára de gritar quando seu desejo é atendido. O ato de atender ao telefone, parece-me, dá ao outro a impressão de que estávamos ali, à espera, com todo o tempo do mundo disponível.
E o pior é que todo mundo obedece. Já reparam o pandemônio que ele cria numa casa com seus gritos histéricos? E como se fosse um rei, cujas ordens têm de ser obedecidas imediatamente.
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E, depois, vêm os insultos. Para mim, o mais detestável é quando a telefonista atende e diz: Um momentinho só! E, sem nos consultar, põe o telefone sobre um rádio. E ali fico eu, sem alternativas, obrigado a ouvir anúncios, música caipira ou rock pois, se não o fizer, não saberei quando a pessoa atende. Há também a situação inversa, quando o outro nos chama e a telefonista diz: Um momento, por favor! Aí, toca a procurar a pessoa que fez a chamada que, naquele momento, deve estar num outro lugar e que imagina que o seu tempo é precioso demais para esperar, somos nós, desocupados, os que temos de ficar esperando. Mas isso eu resolvo fácil. Conto até dez e desligo. Se chamar de novo, digo que a linha caiu.
Depois dos insultos, as humilhações. A telefonista atende, digo com quem desejo falar e ela pergunta: De onde? Fico perplexo. Desde quando deixei de ser uma pessoa para transformar-me num lugar? Pois a pergunta de onde? pressupõe que o que importa, o que me define, é o lugar onde estou. Sou onde estou! Que filosofia besta! Resolvo brincar. A sua pergunta sobre o onde respondo com o meu endereço. Não, não, ela me interrompe, espantada com a minha burrice. O nome da sua firma... Pergunto de volta: E se eu não tiver firma? E ela se cala. Não lhe ensinaram como proceder em tal situação. Ela não sabe o que fazer quando, do outro lado da linha, quem fala é uma pessoa e não um lugar.
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Estou com raiva do telefone. A pimenta e a areia transbordaram dos olhos. Entraram nos pensamentos. Vou voltar para a cama, na esperança de poder dormir e desejoso de que não haja outro telefonema de amor que me acorde.
12/12/93

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