quinta-feira, 4 de junho de 2015

COMENTÁRIO HISTÓRICO DA USP E ALGUNS DE SEUS BORDÕES

REVENDO BORDÕES E A HISTÓRIA DA USP
O Brasil que as Arcadas vislumbraram

Na série de reportagens sobre os 70 anos da Universidade de São Paulo, a marca da Faculdade de Direito do largo de São Francisco, formadora das elites no Império e na República

FABRÍCIO MARQUES | ED. 102 | AGOSTO 2004
Músicas nas Arcadas – Jornal da USP
A Faculdade de Direito do largo de São Francisco, a mais antiga das unidades que há sete décadas deram origem à Universidade de São Paulo (USP), preserva os sinais de vigor que a transformaram em paradigma do ensino superior já nos tempos em que o Brasil era um império dos trópicos e a cidade de São Paulo não passava de burgo bucólico e provinciano. No último ranking do Provão, a faculdade aparecia em primeiro lugar, seguida por escolas jurídicas de Minas Gerais, do Paraná, do Espírito Santo, da Bahia, do Rio de Janeiro, de Brasília e da cidade paulista de Franca.
Pode-se afirmar que todas essas escolas alcançaram excelência mirando-se no exemplo da instituição paulistana. Também é certo que elas aliviaram de responsabilidades históricas a “velha e sempre nova” Academia, como gostam de tratá-la seus bacharéis.Aberta em 1828 nas instalações de um antigo convento franciscano no centro de São Paulo, a faculdade por muito tempo representou uma das escassas opções da oligarquia nacional para ilustrar seus filhos. Alunos de toda parte aportavam em São Paulo.
Dos 33 inscritos na primeira turma, só nove moravam na capital; oito vieram do rico interior agrícola da província, dez do Rio, quatro de Minas Gerais e dois da Bahia. Essas levas pioneiras de estudantes seriam as primeiras a acalentar o sonho cosmopolita da futura metrópole. A cidade fora escolhida para acolher o curso jurídico com o argumento de que não oferecia diversões a distrair os estudantes e o custo de vida era baixo. Isso não durou muito tempo. Entre as décadas de 1830 e 1870 – antes que a riqueza do café e o advento das ferrovias transformassem a cidade – São Paulo foi um território de estudantes e a presença deles estimulou a construção dos primeiros hotéis, teatros e casas de diversão.
A faculdade foi criada, pouco mais de cinco anos após a proclamação da Independência, com a missão de forjar uma elite de homens públicos capaz de gerir a nação – a Universidade de Coimbra passara a hostilizar os aspirantes a bacharéis oriundos da colônia desgarrada. Se a meta era preparar os “homens hábeis” que comandariam o país, se a intenção era conferir base intelectual à elite governante, pode-se dizer que o objetivo rendeu frutos fartos e duradouros.
Até pelo menos a Segunda Guerra Mundial, a Academia foi o principal pólo de formação de quadros para a política, a Justiça e o jornalismo no país. Em março de 1868, o vapor Santa Maria desembarcou no porto de Santos dois estudantes baianos mal saídos da adolescência que marcariam a trajetória da faculdade e a história do Brasil. Um deles era Ruy Barbosa, o jurista que moldaria a Constituição republicana, o poliglota que representaria o Brasil na Conferência de Haia.
O outro era o poeta Castro Alves – que morreria de tuberculose três anos mais tarde, mas formou o trio de poetas românticos com os colegas Fagundes Varella e Álvares de Azevedo. O jovem fluminense Juca Paranhos também estudou lá. Filho de um ministro do Império, o aluno Juca, o lendário barão do Rio Branco, seguiria carreira política e diplomática e teria um papel na delimitação das fronteiras brasileiras no sul, no extremo norte e no extremo oeste do país.
No final do século 19, estima-se que sete em cada dez deputados brasileiros haviam passado pelas Arcadas – outro apelido da faculdade, referência aos sustentáculos da construção de taipa do convento franciscano, reconstituídos no novo prédio, erguido na década de 1930. A República Velha (1889-1930) foi, antes de tudo, uma República de bacharéis do largo de São Francisco. Oito presidentes dessa fase formaram-se nas Arcadas: Prudente de Moraes, Campos Salles, Afonso Pena, Rodrigues Alves, Delfim Moreira, Venceslau Brás, Arthur Bernardes e Washington Luís.
Também sairiam da instituição 45 governadores da Província e do Estado de São Paulo. No início do século 20, a Academia passaria a dividir com outras instituições, como a Faculdade de Medicina e a Escola Politécnica, a primazia de formar a elite de São Paulo. Igualmente, os bacharéis foram cedendo espaço na gestão pública para a tecnocracia (as demandas do país tornavam-se mais complexas) e para os militares (seus antagonistas, que chamavam os políticos de “casacas”).
Curiosamente, a faculdade só voltou a produzir outro chefe da nação – mesmo assim, em experiência fugaz – nos anos 1960: foi na militância estudantil das Arcadas que Jânio Quadros ensaiou sua retórica. A massificação do ensino superior não ofuscou a importância da faculdade, que continuou a atrair a elite dos candidatos no vestibular e é um raríssimo exemplo de aprovação maciça nos exames da seção paulista da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). O país hoje tem mais de 700 escolas de direito e 400 mil advogados.
A efervescência do largo de São Francisco deixou marcas até onde menos se imagina. O sanduíche bauru ganhou esse nome porque era o preferido do estudante de direito Casemiro Pinto Neto no restaurante Ponto Chic, centro de São Paulo. Casemiro, conhecido como Bauru – a cidade paulista onde nasceu -, cedeu o apelido ao sanduíche.
O bordão “é pique, é pique, é hora, é hora, é hora, rá-tim-bum”, incorporado no Brasil ao Parabéns a você, é uma colagem de bordões dos pândegos estudantes das Arcadas da década de 1930. “É pique, é pique” era uma saudação ao estudante Ubirajara Martins, conhecido como “pic-pic” porque vivia com uma tesourinha aparando a barba e o bigode pontiagudo. “É hora, é hora” era um grito de guerra de botequim. Nos bares, os estudantes eram obrigados a aguardar meia hora por uma nova rodada de cerveja – era o tempo necessário para a bebida refrigerar em barras de gelo. Quando dava o tempo, eles gritavam: “É meia hora, é hora, é hora, é hora”.
“Rá-tim-bum” , por incrível que pareça, refere-se a um rajá indiano chamado Timbum, ou coisa parecida, que visitou a faculdade – e cativou os estudantes com a sonoridade de seu nome. O amontoado de bordões ecoava nas mesas do restaurante Ponto Chic, com um formato um pouco diferente do que se conhece hoje: “Pic-pic, pic-pic; meia hora, é hora, é hora, é hora; rá, já, tim, bum”.
Como isso foi parar no Parabéns a você? “Os estudantes costumavam ser convidados a animar e prestigiar festas de aniversário. E desfiavam seus hinos”, conta o atual diretor da faculdade, Eduardo Marchi, de 44 anos, que relembrou a curiosidade em seu discurso de posse, dois anos atrás. Em 1934, a faculdade deixou de ser uma escola federal, foi incorporada à Universidade de São Paulo – mas manteve-se ciosa das tradições. As tentativas de transferir a sede para a Cidade Universitária foram rechaçadas – os alunos chegaram a arrancar a pedra fundamental do que seria o novo prédio.
A defesa do ideal da liberdade é uma marca da instituição – e também a origem de um paradoxo histórico. Os estudantes do largo de São Francisco e seu combativo Centro Acadêmico 11 de Agosto engajaram-se em boa parte das lutas democráticas, do abolicionismo à Revolução Constitucionalista de 1932, da liberdade de imprensa ao movimento pelos direitos humanos, da oposição ao Estado Novo à campanha pelas eleições diretas e pela Constituinte com participação popular, nos anos 1980.
O alemão Julio Frank e o italiano Líbero Badaró, ativistas liberais e professores do curso preparatório para a faculdade no Primeiro Reinado, tornaram-se ícones das primeiras gerações de alunos. “Mas a origem elitista transformava boa parte dos alunos inflamados em ardentes defensores da ordem quando alçavam carreira na política e na magistratura”, diz a historiadora Ana Luiza Martins, autora do livro Arcadas – História da Faculdade de Direito do largo de São Francisco, em parceria com a também historiadora Heloisa Barbuy.
Na história recente, bacharéis do largo de São Francisco tiveram papel importante na redemocratização do país – Ulysses Guimarães, o artífice da Constituição de 1988, e o ex-senador e governador André Franco Montoro são egressos da instituição. O corpo docente também teve nomes como Goffredo da Silva Telles, que, em 1977, ousou exigir a volta do Estado de direito na comemoração dos 150 anos dos cursos jurídicos do país.
Mas alguns professores emprestaram seu brilho acadêmico a causas liberticidas, caso dos ex-diretores da faculdade Luiz Antonio da Gama e Silva, ministro da Justiça do marechal Costa e Silva e redator do Ato Institucional 5, e Alfredo Buzaid, que sucedeu Gama e Silva no governo do general Emílio Médici, o mais opressivo do período militar. Independentemente das divergências doutrinárias ou ideológicas, os professores sempre cultivaram os civilizados preceitos do respeito e da tolerância. “Há muito se diz que a congregação da faculdade é o lugar onde se aprende a divergir polidamente”, diz o professor aposentado e ex-diretor da faculdade Dalmo de Abreu Dallari, ativista dos direitos humanos desde os anos 1970.
A presença de alunos e mestres da faculdade no cenário jurídico sempre foi marcante – Clóvis Bevilacqua, João Mendes Júnior, Teixeira de Freitas e Vicente Rao são exemplos. O Código Civil brasileiro, criado em 1916 sob a presidência de um aluno das Arcadas, Venceslau Brás, foi reformado sob a coordenação de um jurista forjado na instituição, Miguel Reale. Na década de 1970, com a criação dos cursos de pós-graduação, a faculdade assumiu a missão de produzir pesquisa. Não é uma tarefa simples – e nessa dificuldade a instituição tem a companhia dos demais cursos do país.
“Boa parte da pesquisa em direito no Brasil e na faculdade ainda se debruça sobre a análise de doutrinas e de questões de jurisprudência, sem uma pesquisa de campo ou base filosófica ou sociológica”, diz o professor Antonio Luis Chaves Camargo, presidente da Comissão de Pesquisa da faculdade. Eduardo Bittar, professor associado do Departamento de Filosofia e Teoria Geral do Direito – e um estudioso da questão da pesquisa jurídica -, complementa: “As pesquisas empíricas, os estudos de caso, as pesquisas documentais, as análises sociológicas ainda são esteios negligenciados pela cultura jurídica nacional”. Não deixa de ser curioso, pois o direito compreende uma forte atividade intelectual, como se pode perceber no vigoroso mercado de livros jurídicos (muitos deles escritos por docentes do largo de São Francisco).
O que também atrapalha a pesquisa é a pouca adesão dos docentes da Faculdade de Direito ao regime de dedicação exclusiva. Apenas 10% dos 130 professores trabalham em tempo integral. A tradição brasileira é a dos docentes com pés fincados no mercado de trabalho – juízes, promotores, donos de escritórios de advocacia -, capazes de mostrar a realidade da profissão aos estudantes. A dupla militância é uma realidade desde que a faculdade foi fundada.
Na década de 1860, apenas dois terços dos 17 professores encontravam-se sempre em São Paulo – magistrados ou políticos, vários deles estavam desempenhando funções de ministro do Império ou de governador de Províncias. Em países como os Estados Unidos e a Alemanha, um dos alicerces mais importantes da pesquisa jurídica é a dedicação integral dos docentes.
É certo que as Arcadas estão empenhadas em transformar progressivamente esse panorama. Cresce o número de convênios com instituições estrangeiras, como a Università degli Studi di Roma “La Sapienza” e Universtà Statale di Milano, na Itália; Université de Lyon II, na França; Universidade de Lagos, na Nigéria; University of Texas, Austin, nos EUA, entre outras. Até dez anos atrás, praticamente não havia estudantes de graduação realizando projetos de iniciação científica. Hoje 2% dos alunos já têm bolsas.
A partir de 2005, os estudantes de graduação serão obrigados a produzir uma tese para obter o grau de bacharel. A idéia da chamada Tese de Láurea, inspirada no ensino superior italiano, busca, entre outras finalidades, combater um efeito nocivo que o mercado de trabalho tenta impor à faculdade.
Os estudantes hoje são convidados a cumprir estágios em escritórios de advocacia cada vez mais precocemente, alguns até no segundo ano de curso – comprometendo o tempo de estudo. A obrigação de fazer a tese vai reforçar o vínculo dos alunos com a instituição, tornando a formação menos prática e mais reflexiva. Continua valendo uma máxima que todos os dirigentes das Arcadas repetiram orgulhosamente: o objetivo da Faculdade de Direito da USP é formar juristas, não bacharéis.
20180622_105611_large.jpg - Foto de Faculdade de Direito da USP ...

fim

A ARTE DA RESISTÊNCIA - PROFª. DRA.ELIANE GANEM


A ARTE DA RESISTÊNCIA
PROFª. DRA.ELIANE GANEM
Este texto foi originariamente apresentado no “I Simpósio de Arte e Cultura da Diversidade: Poéticas do Cotidiano”, organizado pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência da Arte da UFF.

Para não me estender demasiadamente em conceitos que não podem ser entendidos rapidamente, quero apenas enfatizar aqui, que qualquer investigação sobre arte e ciência, supõe uma reflexão fundamental sobre a existência e que pode ser expressa na pergunta -“Quem sou eu?”. Como um corpo social, estamos voltados basicamente para essa pergunta fundamental também no sentido da nossa experiência cultural, ou seja, como conjunto coeso de interações, de necessidades comuns, de ideologia, de crenças, que fazem com que permaneçamos ligados por vínculos sólidos e princípios éticos inquestionáveis. A maior parte dessas ideias que nos tornam coesos faz parte da comunicação que é passada de consciência para consciência, formando um ego social forte e necessário à nossa sobrevivência.
Comungamos mais ou menos as mesmas ideias estabelecendo normas, regras, leis e desenvolvendo uma ciência e uma tecnologia, assim como uma arte que confirme as nossas atitudes e crenças. Um exemplo disso foi a arte do século 20. Esta arte se forjou vinculada aos ideais científicos das ciências sociais, que teve como expressão máxima as novas teorias que transformaram o século 20 num laboratório prático para que a arte e a ciência caminhassem de mãos dadas. As ideias revolucionárias marxistas, que identificamos como o centro do pensamento das ciências sociais do século 20, caminharam passo a passo com uma arte que chamamos de revolucionária, uma arte da resistência, uma arte engajada e promissora e que ventilava a busca de novos ares para a humanidade e, individualmente, para nós mesmos.
A expressão “resistência” foi cunhada por esta nova forma de compreensão do mundo. Borramos tudo de uma única cor – o vermelho – e definimos para nós uma posição única de estar no mundo. Pelo menos no mundo Ocidental, a arte passa a se constituir como arte de resistência ao sistema, de resistência ao capitalismo, de resistência à exploração dos países mais adiantados, de resistência popular à arte de elite, à arte burguesa, enfim a arte resistindo à própria arte muitas vezes e criando barreiras que se tangenciavam, mas que dificilmente se imbricavam umas nas outras.
O olhar do século 21 nos permite fazer uma reflexão sobre o nosso conceito atual de arte e como precisamos nos desfazer desse “olhar” comprometido com as ciências sociais do século marxista que acabamos de deixar para trás. Inauguramos talvez uma nova percepção de mundo, uma nova ética, uma nova experiência mística do ser em busca de si mesmo, abandonando não a ciência, mas a resistência que nos impomos diante de ideais europeus, que importamos.
No Brasil, não temos uma arte de museus, a não ser em um sentido muito pontual – ou seja, aqui e ali, temos um Portinari, um Di Cavalcanti, uma Malfatti, uma Tarsila, e alguns outros poucos, mas não temos movimentos expressivos que tenham criado um acervo abundante e de qualidade realmente reconhecida não só por nós, mas também pela crítica internacional. Desde 1920, com a nossa famosa Semana de Arte Moderna, que não tivemos movimentos que pudéssemos chamar de expressivos para a nossa arte, fossem eles quais fossem. Mesmo que alguns “especialistas” apontem para o construtivismo, o concretismo e o neo-concretismo - da década de 50 - não temos de verdade, hoje em dia, um desdobramento proeminente desses movimentos ondulatórios nas artes plásticas. Por isso, é de extrema estranheza quando grupos sociais utilizam expressões - arte de elite, arte de museus - em contrapartida com a arte popular que criamos no meio das ruas – ou no aconchego de espaços pobres e comunitários - deste nosso vasto e extenso território nacional. Muitas culturas convivem e se harmonizam umas nas outras na diversidade que nos acostumamos a presenciar no nosso país. Chamamos de popular essa arte como se houvesse a contrapartida de uma outra – a de elite – e que estaria confinada em museus e cujos artistas seriam aqueles realmente reconhecidos e cujas obras – seletas – colocariam a chamada arte popular em desnível social, como arte não reconhecida, e por isso mesmo uma arte da resistência.
Na verdade, no nosso país só temos esta arte que chamamos de popular. Inexiste no Brasil atual uma elite intelectual forte. Até a década de 70, procurando otimistamente estender para a de 80, tínhamos uma arte em alguns centros urbanos, como Rio de Janeiro e São Paulo, que podíamos chamar de erudita até, mas de uma “elite” que – ironicamente - tratava de temas populares, denunciando a exclusão social, do ponto de vista da ótica marxista. Hoje, se há uma elite intelectual erudita, apenas temos dela ainda conservados algumas pálidas espécies confinadas nas universidades, em alguns órgãos de pesquisa, em alguns setores tímidos que ainda teimam em preservar o patrimônio histórico, artístico e cultural de um Brasil que importava da Europa um imaginário que não era seu. E esse tem sido o nosso ponto de estrangulamento. Uma elite intelectual não deve vir atrelada apenas a uma forma de pensamento, pois com esse tipo de atitude acaba por pagar o preço do seu próprio aniquilamento, resultado do passar dos anos, do esgotamento de sua única crença.
Na verdade, até o século passado importamos da Europa a nossa arte. No teatro, por exemplo, Brecht mudou toda a concepção teatral, a dramaturgia, a forma de interação público-plateia, criando um teatro novo e revolucionário. O teatro da consciência revelou que a arte tinha um papel de transformação social que extrapolava o conceito de fruição estética da arte burguesa. No Brasil, tivemos textos de Oswald de Andrade – com o seu famoso Rei da Vela – eclodindo num teatro de vanguarda associado a uma luta de classes, contra a elite burguesa e a ditadura militar, que estranhamente, ao invés de proteger a burguesia - como seria de se esperar - na verdade perseguiu os seus filhos, torturando-os e, muitas vezes, eliminando-os ao longo de mais de duas décadas.
Enfim, herdamos literalmente as ideias revolucionárias da juventude europeia – da revolução russa até as duas grandes guerras mundiais – recebendo em nosso território um grande contingente de intelectuais jovens, que fugiram de seus países. Atores, diretores de teatro, que por aqui aportaram, trouxeram não só as ideias revolucionárias marxistas, mas também trouxeram a si mesmos, sua visão de mundo, sua resistência, seus ideais.
Esse movimento se fez expressivo também na nossa música – as composições de Chico Buarque eram inteligíveis apenas para os iniciados que comungavam os ideais marxistas. Expressivo também na literatura, nas artes plásticas, enfim em todos os setores, já que a grande maioria dos artistas passou a utilizar a arte como o lugar da denúncia social, da resistência e do despertar coletivo.
Hoje em dia nos acostumamos a olhar o mundo ainda por esta ótica manchada da resistência. Ainda estamos resistindo, querendo que a arte popular seja reconhecida, protegida, valorizada e mistificada. Não nos perguntamos ainda do que se trata exatamente esse reconhecimento e por quem, e que arte é esta. Não nos preocupamos exatamente com a nossa arte e a qualidade artística dessa arte – já que essa conceituação é burguesa – mas com o que os artistas estão fazendo para tornar sua arte popular assimilável pelas camadas mais carentes da população. E se esses artistas, ao se voltarem para as comunidades carentes, realizam algum “trabalho de base” que possa contribuir com a melhoria do nível intelectual do povo.
Mesmo correndo o risco de expor um pensamento contrário ao que foi defendido no século passado, gostaria de deixar a minha contribuição no sentido de levantar uma questão que acredito primordial para o nosso entendimento sobre a arte popular. Na minha opinião não existe hoje outra arte em nosso país, que não seja a chamada arte popular. A velha dicotomia entre a arte burguesa e a arte popular, que levamos mais de um século cunhando, se mostrou estéril pelo menos na nossa realidade brasileira. Toda a nossa arte, da menos à mais expressiva, nasceu e se desenvolveu como arte popular. Como já disse anteriormente, mais do que felizmente, infelizmente não temos aquilo que se pode chamar de uma arte burguesa expressiva, uma arte de museu, uma arte erudita ou uma arte de elite. Digo infelizmente, porque a nossa resistência talvez nos tenha tornado menos ricos em nossa diversidade cultural e artística, moldando os olhos através do preconceito rude de um proletariado imaginário.
Por outro lado, esse fato nos liberta, e é exatamente isso que quero chamar a atenção aqui. É que não precisamos do reconhecimento do outro para que a arte popular se firme. A arte do outro também é popular, e ele também depende do nosso olhar para confirmar a sua importância cultural. A arte das ruas, das comunidades – carentes ou não - criadas dentro da necessidade de expressão da nossa constituição como povo, da nossa busca por uma identidade cultural diversificada, é a nossa única arte. Cheia de influências, de miscigenação de muitas culturas, muitas vezes desdentada e inapropriada. Muitas vezes expressa com palavras erradas, com erros de concordância, pintada com tinta de má qualidade, borrada, excessivamente diluída. Repleta de danças com um formato indígena, negro, caboclo, cheia de folguedos e intromissões, de cores e de um imaginário retirado dos muitos mitos que carregamos das nações que nos constituíram. Não há a quê resistir, não há o que reconhecer. Estamos todos já apropriados pela nossa brasilidade que reconhece o congado, o jongo, o maracatu, a capoeira, o bumba-meu-boi, as inúmeras cantorias e rezas das benzedeiras, os repentes, o cordel, a nossa irreverente facilidade de criar novas possibilidades baseadas em antigas tradições. O samba, as rodas de umbanda, as giras, os pontos cantados, a alegria e a tristeza que nos inspiram. Até mesmo no imaginário poético da nossa relação com o divino. Mesmo nas igrejas importadas – com santos que são, na sua maior parte, europeus. Ou então, com a importação e a apropriação das ideias de Lutero, Calvino, também europeus, e que seccionaram as igrejas para nos fazer pensar – hoje em dia – que cabe também na nossa diversidade esse jeito rigoroso dos ternos mofados e das saias pregueadas e compridas das mulheres beatas.
Enfim, chamo a atenção para o fato de que no século passado importamos o nosso saber, a nossa imaginação, a nossa compreensão, a nossa política, a ética, a moral, a relação dos homens sisudos dos países frios, as roupas, as divindades, a literatura, a poesia, a pintura, os clássicos, os filmes, o teatro, a dança, o inconformismo dos povos europeus e chamamos tudo isso de nosso por um bom tempo. E esperamos que esse nosso, como cobra criada, deite o seu olhar superior e reconheça o outro lado, aquele que passamos o mesmo longo tempo escondendo, quem sabe para podermos depois inventar aquilo que chamamos de resistência, criando assim o nosso próprio inimigo, lutando contra moinhos de vento que jamais existiram.
Esquecemos que chamamos de nosso também os orixás, o carnaval, as escolas de samba, os gingados mulatos e toda uma cultura negra importada. E que não a qualificamos como erudita, já que permaneceu confinada nas senzalas. Mas que em outros países pode ser borrada com a capa sofisticada daquilo que é importado, exótico, diferente.
Enfim, a nossa arte é esta diversidade, presente nos batuques das ruas, nos quintais das casas, nas tiras de papel repletas de poesia e penduradas nas cordas, no barro espremido entre nossas mãos caboclas – em esculturas torcidas como os filetes de alma que povoam os sertões.
E este meu depoimento tem a marca de uma artista que se sente um pouco um animal em extinção. Não faço parte desse popular, porque eu sou esse popular. Não levo a minha experiência para as comunidades carentes porque os meus livros penetram nas casas, sem discriminação. Este é o meu trabalho, como escritora. É sozinha, no silêncio da minha alma, que se expõe ao mundo. Que construo a minha identidade, o meu quem eu sou? É assim o caminho dos artistas, dos poetas, dos pintores, dos cantores, dos jongueiros, dos repentistas, dos capoeiristas, dos escultores, dos atores. Esta é a nossa conversa com Deus. Não porque o social precisa de nós, mas porque é na busca incessante do nosso próprio eu que nos revelamos ao outro e entregamos a ele o que temos de melhor. E então o social se revela como um coletivo de múltiplas expressões.
Na verdade, dançamos porque dançamos. Cantamos porque cantamos. Escrevemos porque escrevemos. Enfim, vivemos, mesmo que não haja motivo. E não há nenhum social capaz de explicar isso.
O que quero deixar claro aqui é que não precisamos mais nos apegar aos nossos inimigos, aos burgueses, ao capitalismo, ao estrangeiro, ao internacional. Não precisamos mais viver a divisão que criamos no seio mesmo de uma arte popular, seccionando-a de acordo com modelos inventados pelas ideias revolucionárias das ciências sociais do século passado. Afinal, já que não temos mesmo uma arte burguesa, podemos relaxar na nossa obscura missão de julgar a arte. Não precisamos mais gerar o ódio, a luta de classes, a resistência, o medo, a discórdia, as guerras exageradas, as dissidências, a corrupção de nossas almas envenenadas, a mídia do espetáculo, os sem teto, os sem vontade, os derrotados, os descamisados, os bóias-frias. Não precisamos mais passar nenhuma demão de tinta em nossa paz de espírito, nem precisamos mais ser revolucionários, frios, duros e calculistas. E nem mesmo precisamos aprender uma forma de “não perder a ternura jamais”.
Não precisamos mais criar nem mesmo novos inimigos. Os que temos nos bastam. Precisamos agora reconhecer que não precisamos mais de reconhecimento. Que a nossa arte é única e toda ela popular. Que a resistência está fadada ao esquecimento. Estamos todos solidários no mesmo projeto que é enxergar a nossa brasilidade, não pelo viés do olhar estrangeiro, mas pelo viés da nossa diversidade, da nossa afirmação enquanto cientistas, artistas, espiritualistas e nação ávida por novos anseios, novas bases e um novo entendimento de si mesma.
Estamos recriando a possibilidade de aproximar a arte e a ciência, agora não mais no interior de uma concepção marxista, como foi a aliança entre a arte e a ciência no século passado. Mas agora uma aliança que requer autonomia artística, ou seja, a possibilidade da arte estabelecer seu próprio estatuto, mas ao mesmo tempo se colocando como alicerce de uma nova ciência, que pressupõe novos paradigmas para construção de um novo olhar científico. A arte e a ciência hoje – aliviadas da carga do passado - caminham de mãos dadas no projeto único de investigação da nossa brasilidade, do “quem somos nós, realmente”. E esse é um projeto capaz de nos revelar a nossa verdadeira face, de recriar a nossa atual identidade e de estabelecer para nós mesmos os nossos próximos desafios.
A arte, aliada às novas possibilidades de uma ciência que se argui a si mesma, atribuindo a si mesma uma nova consciência, será talvez o ponto de transformação necessário para a inclusão social de todos. Talvez a menina dos olhos do século 21 seja esse florescimento da consciência, e da possibilidade que temos de perceber que condicionamos a nossa forma de existir e de nos inserirmos no mundo ao roteiro que nós mesmos podemos construir para as nossas experiências artísticas, científicas, filosóficas e místicas. Na verdade, o que nos acontece não é fruto apenas das oportunidades deste planeta, mas das oportunidades que a nossa consciência busca, nesse afã que temos de estabelecer uma comunicação interior espiritualmente rica, e que é nomeada por nós como arte e ciência. Mas que também cria para nós a nossa própria prisão, caso não tenhamos a clareza de que se tratam de conceitos, ou como diz Foucault, tão apropriadamente, “de palavras e coisas” ligadas por similitudes e analogias que nós mesmos criamos.



O texto é de veras interessante, porém ao final a autora se descura de sua rebeldia e se remete à opinião de um “execrado europeu!”, ou deveríamos evitar a xenofobia e aproveitar de tudo um pouco, já que ao que se diz o povo brasileiro é a amalgama de todos os povos que aqui foram acolhidos e que lhe propicia tanta riqueza e diversidade? Para quê rejeitar, em vez de aproveitar e adubar a nossa arte e ciência? Adelaide uma estrangeira em terras brasileiras.