COLOSSO
DE APENINOS, A ESTÁTUA DA TOSCANA
Pesquisa
de Adelaide abreu-dos-santos
VILLA MEDICEA DI
PRATOLINO A Villa Medicea di Pratolino (conhecida,
actualmente, como Villa Demidoff ou Villa Demidoff di Pratolino) é um palácio italiano localizado na Toscânia, cerca de 12km ao norte de Florença pela estrada principal para Bologna. A villa fica na via Fiorentina nº 276,
localidade de Pratolino, Vaglia, Província de Florença.
A villa original foi construída
pelo solitário Francisco I de Médici Grão-Duque da Toscânia, em parte para agradar à sua amante veneziana, a célebre Bianca Capello,
segundo desenhos do seu arquitecto-desenhador-mecânico-engenheiro da Corte, Bernardo Buontalenti, numa
única campanha que durou de 1569 a 1581,
apesar de não estar suficientemente acabado para providenciar o cenário para o
casamento de Francisco e Bianca Cappello, no dia 10 de Junho de 1579. No seu tempo possuía um esplêndido
exemplo de jardins maneiristas.
A verdadeira villa dos Médici foi
demolida em 1822, mas em seguida a propriedade foi adquirida por uma
família de origem russa, os Demidoff, que
fizeram do edifício secundário de serviço a nova villa, ampliando-o e
reestruturando-o. O parque, embora desordenado e espoliado ao longo dos
séculos, é um dos mais belos e vastos de toda a Toscânia, encontrando-se entre
os mais importantes no estilo de jardins à inglesa.

propriedade
A grande
propriedade de Benedetto Uguccioni foi adquirida, em 1568,
por Francisco I de Médici,
antes deste se tornar Grão-Duque. O terreno era bastante distante de Florença, numa zona acidentada e escarpada no
sopé dos Apeninos. Francisco confiou a Bernardo Buontalenti
o encargo de edificar uma esplêndida villa (1569-1575),
para residência da sua segunda esposa, Bianca Cappello. A Villa Medicea di Pratolino,
com importância estratégica no complexo das villas Médici, tanto pelo lugar, como
pela actividade agrícola ou por outros motivos, devia representar a concessão
principesca ao puro luxo, onde tudo era elevado à máxima magnificência. As
"maravilhas" de Pratolino foram, mesmo antes de estar concluída,
objecto de exaltação e louvor em várias citações, quase a justificar o custo
colossal de 782.000 escudos italianos, o dobro, para dar um exemplo, da despesa
necessária para completar a Galleria degli Uffizi.
Segundo uma afirmação de Michel de
Montaigne:
"A beleza e a riqueza desse
lugar não se pode representar pela escrita" (La beauté et la richesse de ce lieu ne se peut représenter par le
menu).
Circundada
por um grande parque de abetos, o palácio tinha no
andar térreo um complexo de jogos artificiais com automatismos, brincadeiras de
água e cenários embelezados com a presença de estátuas antigas, madrepérola, pedras duras e mármores valiosos; também o
parque era rico em achados fantasiosos e fontes monumentais; Buontalenti foi,
igualmente, o inventor destes mecanismos e achados, os quais respeitavam acima
de tudo a personalidade e os interesses do novo Grão-Duque, amante das estranhezas
naturais, da alquimia e da inspiração mais fantasiosa, como
se manifesta numa outra obra prima por ele encomendada, o Pequeno Estúdio de
Francisco I no Palazzo Vecchio.
A exacta
representação da Villa Medicea di Pratolino, realizada por Giusto
Utens na célebre série de lunetas com as villas Médici para a Sala
das Villas da Villa Medicea di
Artimino (actualmente no Museo di Firenze com'era), mostra
Partolino como se fosse o parque-jardim mais vasto entre as propriedades dos
Médici, ao ponto de ocupar quase todo o espaço da representação, apesar de só
estar pintada a metade sul do mesmo.

O parque
era cortado por um eixo coincidente com uma alameda, a qual aparecia como o
único elemento regulador. A morfologia do terreno era caracterizada por uma
riqueza de fracturas, cavidades e outras irregularidades. A villa erguia-se ao
centro, e todo o parque era assinalado pela presença de água, elemento gerador
e absoluto protagonista simbólico do esquema decorativo. O eixo principal
norte-sul, no qual se encontrava a villa, unia as duas partes do parque:
começava a norte com a Fonte de Júpiter (Fontana di Giove), o Parque das
Modernidades (Parco dei Moderni) e o Colosso do Apenino (Colosso
dell'Appennino); depois da villa prosseguia em direcção ao sul com a
Alameda das pilhas (Stradone delle pile), o Parque dos Antigos (Parco
degli Antichi) e a Fonte da lavadeira (Fontana della lavandaia). A
partir deste eixo, dispersava-se uma série de avenidas, caminhos e labirintos,
que à sua volta levavam a grutas, fontes e tanques disseminados por todo o
lado. Suscitavam particular admiração os sofisticados engenhos que moviam os
autómatos, alimentando sons e jogos de água. Neste complexo, os vários
elementos arquitectónicos do parque eram singulares graças à precisão dos
sentidos, os quais eram estimulados pelo rumor da água e da chuva artificial.

Trabalharam
no complexo outros arquitectos além de Buontalenti, como Bartolomeo Ammanati, Valerio Cioli, Vincenzo Danti e o Giambologna,
tendo este último realizado o Colosso do Apenino cerca de 1580. Este elemento,
que se mantém como o elemento mais notável do conjunto original, possui uma
altura de dez metros, com a parte baixa ocupada por uma gruta hexágona, a
partir da qual se acede, através de uma escada, ao vão escavado na parte alta
do corpo e na cabeça, com iluminação para os olhos no interior. Exteriormente a
estátua é ornada por esponjas e concreções calcárias, das quais corria água
para a piscina abaixo. O Dragão (Drago) foi acrescentado por Giovan Battista Foggini
no século
XVII.

Junto ao Apenino encontra-se o grande labirinto de loureiro, enquanto que à sua frente se abria um amplo prado, com vinte seis esculturas antigas colocadas nos lados. Giusto Utens detém-se na sua representação dos tanques comunicantes, os quais levavam água do monte ao vale numa sucessão contínua de cascatas, pequenos lagos artificiais e outros elementos de grandioso efeito cénico.
A villa era tão magnífica como o parque. Compacta na estrutura externa, com as típicas janelas emolduradas em pedra singela sobre o estuque branco, era racionalmente simétrica na disposição dos ambientes internos. Na alta base abria-se uma série de grutas artificiais fantasiosas, como a Gruta do Dilúvio (Grotta del Diluvio), a da Galatea (di Galatea), da Estufa (della Stufa), da Esponja (della Spugna) ou da Samaritana (della Samaritana), nas quais Francisco, inclinado à solidão e à evasão, tinha o hábito de encontrar-se secretamente com a sua amante Bianca Cappello, com a qual só pôde casar-se depois de enviuvar, em 1579, embora num primeiro momento, por prudência, o casamento se tenha mantido secreto.
Os outros médici
Francesco e Bianca morreram inesperadamente no mesmo dia, em 1587, na Villa Medicea di Poggio a Caiano, provavelmente vitimados por envenenamento. A residência de Pratolino, impregnada da memória de Francisco, do seu inquieto e melancólico hedonismo, foi pouco frequentada pelos sucessivos Grão-Duques Médici. Em Pratolino, embora fosse um modelo cultural imitado em toda a Europa, começaram a registar-se, no final do século XVII, os primeiros desaparecimentos de estátuas e de instalações hidráulicas.

Só
voltaria a ser habitado no final do século XVII,
pelo filho de Cosme III,
o grão-príncipe – isto é, o príncipe herdeiro - Fernando de Médici.
Fernando era uma figura inquieta e por certo algo semelhante ao seu
antepassado. Coleccionista de coisas raras e curiosas, amante do dileto e do
capricho ("capriccio"), prezava profundamente a villa de Pratolino e
nela empreendeu trabalhos de restauro e posterior embelezamento com novas obras
artísticas: afrescos
de Pier Dandini, Crescenzo Onofri, Anton Domenico Gabbiani e Sebastiano
Ricci; um novo teatro realizado por Anton Maria Ferri e Ferdinando
Galli da Bibbiena(1697); novas estátuas para o parque. Fernando não se tornou
Grão-Duque devido à sua morte prematura, em 1713, causada pela sífilis.
O PERíODO DOS LORENA
O complexo, demasiado diospendioso para poder sobreviver, teve um periodo de abandono com o advento dos Lorena, os quais tinham uma visão completamente diferente da gestão do património já pertencente aos Médici: sobretudo as villas já não eram um lugar de distracção, mas um "custo" disperso pelo território, pelo que a sua prudente gestão de cunho iluminista levou à gradual alienação das villas. Pratolino teve uma sorte particularmente dolorosa, uma vez que no final do século XVIII apresentava um estado de conservação muito preocupante.

O contínuo abandono e a incúria haviam comprometido notavelmente a disposição decorativa do parque, nessa época usado somente como reserva de caça. Mesmo a villa, que sofria infiltrações de água proveniente das grutas subterrâneas às quais niguém tinha dado resposta atempada, estava agora arruinada.
Muitas das estátuas foram transferidas para o jardim do Palazzo Pitti, os Jardins do Bóboli, até que, em 1819, o Grão Duque Fernando III transformou o esplêndido jardim à italiana num jardim à inglesa, por obra do engenheiro boémio Joseph Fritsch. Esta escolha de planeamento comportou o alargamento da área de representação à custa da área cultivada, e o aumento da superfície do parque de vinte para setenta e oito hectares.

As ruínas do parque Buontalentiano foram facilmente englobadas no arranjo paisagístico do novo parque.
Ao engenheiro Joseph Fricks deve-se, também, a triste demolição do palácio, o qual derrubou com explosivos em 1820. Desaparecia, deste modo, aquela que segundo alguns era a mais esplêndida e seguramente a mais extravagante das villas Médici, "teatro de delícias, de magnificência e de comodidades".
O PARQUE Apesar
de muitas obras de arte originais terem sido removidas ao longo dos séculos, o
parque ainda conserva muitas peças de interesse relevante. Entre estas encontra-se:
o Colosso do Apenino (Colosso dell'Appennino) de Giambologna;
a Fonte de Júpiter (Fonte di Giove), cuja cópia foi instalada pelos Demidoff no
final do século XIX; as duas metades de esponja; a
capela, de planta hexagonal com loggia (galeria aberta) externa, na
qual está sepultada a última princesa Demidoff; a Fonte do Mugnone (Fonte del
Mugnone), cuja estátua foi esculpida por Giambologna
em 1577;
a Pesqueira da Máscara (Peschiera della Maschera), também usada como piscina e
equipada para banhos quentes; o Grande Aviário (Grande Voliera); a Faisanaria (Fagianeria);
a Gruta do Cupido (Grotta di Cupido), construída por Buontalenti em 1577; o pavilhão
neoclássico de Montili, realizado por volta de 1820 pelo arquitecto Luigi de Cambray-Digny.
Em
todo o parque estão presentes árvores seculares, entre as quais carvalhos,
robles,
cedros
e castanheiros-da-índia, verdadeiros monumentos
naturais ricos em sugestões.